Já lá vão vinte longos anos desde que comecei a praticar karaté e, quanto mais o tempo passa, mais dúvidas tenho quanto ao verdadeiro sentido do karaté. Hoje em dia, esta arte marcial (ou modalidade desportiva?) vive um momento de grande mudança, que passa pela grande questão de saber se o caminho a seguir é o do karaté tradicional ou, por outro lado, o do karaté moderno, virado para a competição desportiva.
Na minha modesta opinião, penso que no meio, como sempre, estará a virtude, tal como o Sensei Gichin Funakoshi, partilho em absoluto com a sua máxima de que o desenvolvimento do carácter do praticante é o mais importante. Tal como partilho da opinião do grande Sensei Nakayama de que, treinar apenas para ganhar um combate, desvirtua esta bela arte marcial que eu amo e que defendo até ao fundo do meu ser.
Fui competidor mas, jamais presumi ser o melhor apenas porque vencia o combate. Sempre me guiei pelos princípios basilares do karaté: Carácter, Sinceridade, Esforço, Etiqueta e Autocontrole.
Só alguém com grande Carácter tem capacidade para suportar as dificuldades, a situações mais duras, sem desistir nunca, sempre com determinação nos seus objectivos.
Ser Sincero com os outros, mas fundamentalmente connosco próprios, é de extrema importância quer na forma de encarar o treino, quer em todas as circunstâncias da nossa vida.
O Esforço dispensa comentários. Alguma coisa que valha a pena se conquista sem esforço?
A Etiqueta tem a ver com o respeito pelas norma, pelos outros no geral (esse valor tão esquecido actualmente....!). No treino este princípio deve nortear-nos sempre, principalmente, quando treinamos com alguém que está em inferioridade relativamente a nós (idade, graduação, capacidade física, etc, etc).
Finalmente, aquele princípio que mais difícil é de atingir: Autocontrole.
Vencer os outros pode até ser fácil, mas vencer-nos anós próprios é muito mais difícil.
Saber que se tem a capacidade para "dar cabo" de alguém que nos ofende ou tenta agredir e, ainda assim, conseguir dominar-se, reagindo com serenidade, sem mostrar receio ou medo, quando atingimos este estado, podemos estar orgulhosos de nós próprios.
Peço desculpa pela extensão deste desabafo mas penso que todos devemos reflectir sobre esta arte marcial que amamos e que, no meu caso, é uma das coisas que me dá sentido à vida.
Oss

