Tuesday, November 27, 2007

Temos campeões



Após mais um interregno, cá vai mais uma crónica (se é que se pode chamar crónica a esta coisa). Em primeiro lugar, dar os parabéns aos karatecas portugueses que no último fim de semana dignificaram o nome de Portugal no Campeonato Europeu de Cadetes, Juniores e Seniores da ESKA, que decorreu em Matosinhos e que contou com a presença de um elevado de atletas de vários países.

Não conheço todos os atletas medalhados mas, há dois que destaco: Jorge Caeiros, que arrecadou o título de campeão europeu de kata individual na categoria de juniores (ele que já havia sido vice-campeão da europa de cadetes em 2005 e 3º na categoria de seniores em 2006!) e Carlos Castro que se sagrou igualmente campeão europeu em kumite individual masculino na categoria de juniores. Estes dois atletas têm a particularidade de serem muitíssimo bons competidores e, tanto quanto julgo saber, estudantes universitários com uma perfomance notável e, pasme-se, têm vida para além do karate!

Esta conversa toda serve para quê no fundo? Serve para explicar a todos aqueles que abandonam a prática do karate com a desculpa de que não têm tempo para treinar, porque têm que estudar e o karate atrapalha, porque andam muito cansados, etc, etc, etc....

O que dizer então destes jovens, que têm os mesmos gostos de todos os jovens, têm amigos com quem gostam de saír, programas de tv que gostam de ver, cd's para ouvir e muitas outras coisas agradáveis para fazer. O que dizer então de jovens que investem tanto do seu tempo e energia para treinar ao mais alto nível, pois não se chega a campeão europeu, ou até mesmo nacional a treinar 2 ou 3 vezes por semana. A juntar a isto, o tempo gasto nos campeonatos, torneios, treinos de selecção, viagens longas no país e estrangeiro. Eu pergunto: o que faz correr estes jovens numa época em que a maioria destes jovens têm tudo de "mão beijada". Para quê tanto esforço para conquistar uma graduação se ali ao lado, na sala de Body Combat o ambiente até é mais animado, tem música e até apuro a forma física? Ou então, para quê perder tanto tempo quando posso estar aqui no sofá, a ver o meu programa favorito agarrado a um balde de pipocas e uma Cola de 1,5l bem fresquinha ao lado?

Muitas vezes dou estes exemplos aos meus alunos, não com o sentido de se tornarem grandes campeões de kumite ou kata, mas para que sejam grandes campeões na vida. Que procurem incessantemente os seu objectivos com persistência, com garra e atitude positiva e, claro está, com respeito pelos outros. Não é isto que tentamos transmitir no dojo? O dojo kun é só para para fazer vista?

É muito gratificante ser campeão. É gratificante para o atleta, para o treinador, para os pais, para a escola, para os colegas de treino, para todos. Mas é importante que nunca nos esqueçamos dos princípios que abraçámos ao iniciar a nossa prática: carácter, sinceridade, esforço, etiqueta e autocontrole.

Por vezes, mais difícil do que saber ganhar, é saber perder. Não me refiro a gostar de perder, pois eu não gosto de perder nem a feijões. Refiro-me a aprender com o insucesso. A perceber porque falhámos e usar esse fracasso para nos ajudar a chegar à próxima meta. Por vezes é mais importante desviar o olhar daquele nosso atleta que exulta com a conquista de uma medalha e centrar a nossa atenção num outro que, cabisbaixo se refugia num canto, frustado por não ter conseguido o mesmo sucesso do colega. É nesses momentos que devemos saber mostrar que para se ser campeão não é preciso subir a um pódio.

Campeão é aquele que sai a correr para combater um fogo que ameaça uma população, é aquele técnico do INEM que salva uma vida, é aquele que zela para que quando nos levantamos não temos uma montanha de lixo à porta. Campeões, foram os meus pais que se sacrificaram para que eu tivesse instrução e capacidade para entender isto.

Oss

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