Wednesday, March 05, 2008

2 estágios, 2 grandes mestres: Duplamente gratificante

O fim-de-semana de 22 a 24 de Fevereiro ficou marcado pelo estágio da AKDS, na Moita, com orientação do Sensei José Ramos. No fim-de-semana de 1 e 2 de Março, marquei presença no Dojo Ten Chi, em Sintra para um estágio memorável com aquele que é um dos melhores aikidocas da actualidade - O Shihan Christian Tissier, 7º Dan Aikikai.
Com o mestre Ramos, aprendemos sempre algo de importante, pois é alguém que vive o karate como poucos. Respira karate e, apesar de já não ser o executante de outros tempos, fruto dos problemas físicos que o têm acompanhado nos últimos anos, consegue transmitir o que quer que façamos e põe-nos a fazer o karate que idealiza. É isto que define um grande mestre. Saber fazer, mas acima de tudo, saber como transmitir esse "saber fazer". Os treinos foram variados e muito interessantes do ponto de vista da execução do kihon dois-a-dois, utilizando técnicas e deslocamentos variados e com alguma complexidade. No estágio do mestre Tissier, tive muito mais a absorver, pois aí sou um 4º kyuzinho e estou perante todo um registo absolutamente diferente daquele a que estou habituado, logo, tenho que processar muito mais informação. Existe por vezes uma tendência muito acentuada para desvalorizar as outras artes em detrimento da nossa. Na minha modesta opinião, isso é errado. Tudo tem um lado mais positivo e um lado mais negativo. Existem lacunas e virtudes em todas as artes e desportos de combate. Vejamos então: no karaté, a distância de execução é estabelecida numa circunferência em nosso redor, normalmente onde chega a o nosso punho ou a nossa perna. Temos que impedir a todo custo que o nosso oponente entre dentro da nossa esfera (se lhe quisermos chamar assim). No aikido e no judo o oponente tem, impreterivelmente, de entrar na nossa esfera para podermos actuar. No judo entrando na técnica do oponente e projectando-o de uma forma directa (e usando a força deste como coadjuvante). No aikido a forma de encarar o confronto é numa perspectiva de ruptura do centro de equilíbrio do adversário, em movimentos circulares, como uma esfera dinâmica. No fundo, em poucas palavras, o karateca é especialista no combate a um distância mais longa, tendo como grande arma, o atemi. O judoca e o aikido ca é especialista num combate de maior proximidade, tal como se o combate chegar ao chão, o especialista na matéria é praticante de ju-jitsu. Penso que é importante, a partir de um determinado nível de prática, ter algum contacto com outras formas de combate. Eu pratico Aikido há dois anos e tenho melhorado os meus bunkai com o que aprendo no aikido, até porque no karaté não temos técnicas de imobilização e isso pode ser fundamental, depois de um atemi, ou de uma defesa, para impedir que o oponente volte à carga. Quando olho para um kata vejo todo um leque de aplicações que anteriormente não via. Quando executo um tsuki ou um pontapé tento reflectir com os olhos do aikidoca, tal como quando pratico aikido tenho sempre presente o olhar do karateca. É apenas uma questão de prisma.
Ouvir falar e executar um grande mestre, é uma experiência muito idêntica qualquer que seja a arte de que estejamos a falar. No caso do mestre Tissier, tudo parece tão fácil de fazer e no entanto, tão complexo é todo aquele rodopiar levando o adversário completamente enredado numa teia de técnicas. Ao mesmo tempo tão harmonioso e tão brutal, tão eficaz.
Não gostaria de encerrar a minha postagem sem agradecer a forma como fui recebido na Moita, pelos amigos da Associação de Karate do Distrito de Setúbal, assim como prestar homenagem ao Prof. Dr. e Sensei Abel Figueiredo, pela forma como consegue "prender" a plateia com as suas prelecções sempre interessantes, quer pela forma como comunica, quer por toda a sapiência demonstra.